10 livros para quem leu O Diário de Anne Frank

Visitar a casa de Anne Frank, embora não tenha podido fazer a tour pelo local, me encheu de emoção. A história de Anne fascina leitores do mundo inteiro desde que foi publicada e comigo não foi diferente. A inocência e sabedoria de uma menina em meio à face da guerra são admiráveis. Para se ter uma ideia, a fila de espera para adentrar o interior da casa é de, no mínimo, dois meses. Mesmo não conseguindo entrar, poder visualizar o cenário no qual Anne passou por todas as experiências descritas em seu diário já foi uma experiência incrível.

Anne teria completado 89 anos no último dia 12 de junho. Para celebrar a vida e relembrar fatos que nunca devem ser repetidos, resolvi trazer essa lista com dez livros indicados para quem curtiu O Diário de Anne Frank.

O Pianista, de Władysław Szpilman

anne1A incrível história do jovem e talentoso pianista Władysław Szpilman – ele mesmo autor do livro e judeu sobrevivente do Gueto de Varsóvia – é narrada nesta obra que inspirou Roman Polanski a adaptá-la para o cinema. O pianista é uma raridade, pois foi escrito de forma vívida e realista, imediatamente após a experiência de Szpilman durante a Segunda Guerra. Em 1939, no exato momento em que as bombas começaram a cair na capital polonesa, Szpilman executava ao piano o “Noturno em dó menor” de Chopin, na Polskie Radio. Seis anos depois, terminada a guerra, tocou a mesma peça musical para marcar a retomada das atividades da rádio. Este é um dos muitos e emocionantes relatos descritos em O pianista, documento histórico e humano que revela um período de esperança, sofrimento e vitória.

Depois de Auschwitz, de Eva Schloss

anne2Em seu aniversário de quinze anos, Eva é enviada para Auschwitz. Sua sobrevivência depende da sorte, da sua própria determinação e do amor de sua mãe, Fritzi. Quando Auschwitz é extinto, mãe e filha iniciam a longa jornada de volta para casa. Elas procuram desesperadamente pelo pai e pelo irmão de Eva, de quem haviam se separado. A notícia veio alguns meses depois: tragicamente, os dois foram mortos.

Este é um depoimento honesto e doloroso de uma pessoa que sobreviveu ao Holocausto. As lembranças e descrições de Eva são sensíveis e vívidas, e seu relato traz o horror para tão perto quanto poderia estar. Mas também traz a luta de Eva para viver carregando o peso de seu terrível passado, ao mesmo tempo em que inspira e motiva pessoas com sua mensagem de perseverança e de respeito ao próximo – e ainda dá continuidade ao trabalho de seu padrasto Otto, pai de Anne Frank, garantindo que o legado de Anne nunca seja esquecido.

O Refúgio Secreto, de Corrie ten Boom

anne3A história verídica de como uma família holandesa arrisca sua vida para esconder judeus durante a Segunda Guerra Mundial é vividamente registrada neste livro. Como membros do movimento de Resistência, Corrie ten Boom, seu pai e sua irmã foram enviados aos campos de concentração nazistas onde seu aprendizado sobre a graça divina foi o sustentáculo durante os anos de provação. Emocionante! Nesta edição ainda pode-se encontrar um apêndice que narra o desenvolvimento do ministério de Corrie após o fim da guerra e todo o histórico de sua família.

Vozes Roubadas, de Zlata Filipovic e Melanie Challenger

anne4Durante a guerra, o diário de uma criança pode se tornar uma ferramenta poderosa. Ele funciona como um instantâneo do momento, e registra os acontecimentos da maneira menos enviesada possível, pois ainda não carrega o peso de uma análise feita após os fatos. Basta lembrarmos do diário de Anne Frank, a garota judia que durante três anos se escondeu no porão de uma família holandesa, e do impacto que ele teve no pós-guerra. Da mesma maneira, foi com seu diário que Zlata Filipovic, uma das editoras deste livro, alertou o mundo para os horrores da guerra da Bósnia.

Em Vozes roubadas, Zlata e Challenger resgataram catorze diários de conflitos, todos escritos por crianças ou jovens, da Primeira Guerra Mundial à mais recente invasão do Iraque, passando pelo Vietnã, pela Intifada e por diversos momentos da Segunda Guerra Mundial. É o caso da jovem russa, que ingressa no front em 1940 atrás de um grande amor. Ou do rapaz nipo-americano, colocado com a família num campo de concentração em pleno Estados Unidos, para depois se alistar no Exército americano e ainda assim defender os aliados. Ou da menina de Cingapura, que narra as agruras de sua vida numa prisão japonesa.

Esses diversos pontos de vista compõem um rico mosaico dos conflitos que abalaram o século XX e o XXI. No Oriente Médio, por exemplo, acompanhamos tanto o dia-a-dia de uma garota palestina durante a ocupação como o de uma jovem judia, vivendo sob o pavor dos ataques terroristas. Sem se ater a lados políticos ou visões específicas, Zlata e Challenger dão voz àqueles que a guerra procurou, direta e indiretamente, calar.

As Meninas do Quarto 28, de Hannelore Brenner

anne5O que vem a sua mente quando você ouve falar em Segunda Guerra Mundial? Um nome, com certeza: Anne Frank e seu diário. Mas as vítimas do Holocausto têm tantos nomes e tantas histórias que precisamos contar! Não podemos esquecê-las. Helga, Flaka, Zajiek, Marta, Judith, Eva, Handa… Algumas das 15 sobreviventes do Quarto 28 do Abrigo para Meninas de Theresienstadt ainda estão entre nós. Elas não se deixam calar.

Muitos prisioneiros judeus passaram pelo campo de concentração Theresienstadt, uma cidade de faz-de-conta, encenada para desviar a atenção da imprensa e da Cruz Vermelha Internacional. Ali, no Quarto 28 do Abrigo para Meninas, moraram 60 crianças das quais somente 15 sobreviveram.

Suas histórias, mescladas com fatos históricos e anotações do diário de Helga Pollak, desenhos infantis feitos durante aulas de desenho secretas e poesias escritas em álbuns de recordações, nos convidam para uma caminhada por Theresienstadt.

O Menino da Lista de Schindler, de Leon Leyson

anne6Um pequeno vilarejo, os irmãos, os amigos, as corridas nos campos, os banhos de rio: essa é a verdadeira história de Leon, a história de um mundo despedaçado pela invasão dos nazistas. Quando em 1939 o exército alemão ocupou a Polônia, Leon tinha apenas dez anos. Logo ele e sua família foram confinados no gueto de Cracovia junto a milhões de outros judeus.

Com um pouco de sorte e muita coragem, o menino conseguiu sobreviver ao inferno e foi contratado para trabalhar na fábrica de Oskar Schindler, o famoso empreendedor que conseguiu salvar mais de mil e duzentos judeus dos campos de concentração. Neste testemunho que ficou por tanto tempo inédito, Leon Leyson nos conta sua extraordinária história, na qual, graças à força de um menino, o impossível se tornou possível.

O menino da lista de Schindler é um legado de esperança e um chamado para que todos nós nos recordemos daqueles que não tiveram a chance do amanhã.

A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak

anne7A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.

Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.

A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto – e raro – de crítica e público.

A Última Mensagem de Hiroshima, de Takashi Morita

anne8Como sobreviver com a mente cheia de memórias da Segunda Guerra Mundial? Como lidar com o trauma de ter presenciado a destruição arrebatadora de uma bomba atômica praticamente ao seu lado? E como pensar em salvar civis quando sua própria vida está em jogo? Conheça neste livro a história do Sr. Takashi Morita, sobrevivente da bomba atômica que dizimou milhares de seres humanos e que até hoje manifesta efeitos na saúde física e mental da população de Hiroshima e de Nagasaki.

Era 6 de agosto de 1945. Ninguém poderia prever, mas foi neste dia que a vida de inúmeros japoneses – e das gerações subsequentes – mudaria para sempre. As consequências da bomba atômica foram devastadoras, e não apenas no que diz respeito à saúde daqueles que se encontravam nas imediações do epicentro, como é o caso do Sr. Takashi, que exercia o ofício de soldado na época. Para além das numerosas enfermidades oriundas da intensa radiação emitida em Hiroshima e Nagasaki, os atingidos pelas bombas sofreram muita discriminação, principalmente pelo fato de as consequências decorrentes da radiação para os sobreviventes e seus descendentes serem ainda uma incógnita.

Após sofrer situações tão devastadoras como as que o Sr. Takashi viveu, muitos de nós provavelmente sucumbiríamos ao rancor. A sabedoria, no entanto, com a qual ele enfrentou suas memórias mais sombrias é inspiradora. Quando questionado a respeito de suas mágoas com relação aos norte-americanos, responsáveis pelo envio da bomba atômica a Hiroshima, o veterano responde: “Estavam apenas fazendo o seu trabalho.”
O perdão, a compreensão, a empatia e todos os laços e fortalezas construídos em detrimento de um passado que é impossível de esquecer são lições que o Sr. Takashi, agora um comerciante de 92 anos que vive no Brasil, visa nos ensinar neste emocionante relato.

Eu Sou Malala, de Malala Yousafzai e Christina Lamb

anne9Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria.

Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã.

Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente.

Primeiro Mataram Meu Pai, de Loung Ung

anne10Filha de um oficial de alto escalão do governo, Loung Ung teve uma vida privilegiada na capital de Camboja, Phnom Penh, até os cinco anos de idade. Porém, em abril de 1974, o ditador Pol Pot assumiu o poder e liderou um dos regimes mais atrozes da história: o Khmer Vermelho. O exército invadiu a cidade, obrigando a família de Loung a fugir e, eventualmente, a se separar. Enquanto Loung se tornou uma criança-soldado, seus irmãos passaram a viver em um campo de trabalhos forçados.

Primeiro mataram meu pai conta a jornada de Loung e de sua família durante esses anos terríveis. Contudo, este não é um mero relato sobre os horrores de uma ditadura. Sua história é o testemunho da força do espírito humano, capaz de manter a esperança e o amor vivos mesmo em meio à tragédia.

 

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