Biografia: Philip Roth

 

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Biografia

Nascido em 19 de março de 1933, em Newark, New Jersey, Philip Roth é considerado um dos autores mais proeminentes do século XX. Philip cresceu junto a seu irmão mais velho, Sandy, em uma família judia de classe média. Depois de frequentar brevemente a Rutgers University, ele estudou na Bucknell University, onde começou sua carreira literária com um revista chamada Et Cetera. Alguns de seus primeiros contos saíram nessa publicação.

Depois de se graduar em 1954, Roth ingressou no exército americano. Mesmo como um soldado, ele continuou a escrever. Algum tempo depois, obteve um diploma de mestrado em Literatura Inglesa na University of Chicago. Comprovando sua fama de escritor controverso desde cedo, Roth enfureceu vários leitores judeus com o conto “Defender of the Faith”, publicado no The New Yorker. Foi acusado inclusive de antissemitismo, acusação que o irritava profundamente.

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Roth é mais conhecido por suas representações provocativas da identidade americana e judia, geralmente focando no amor familiar, sexo, e mortalidade. Roth é considerado por muitos críticos um desordeiro literário, explorando graficamente incômodos problemas culturais e familiares. Em 1959, ele se tornou uma das grandes revelações da ficção americana com a publicação de Adeus, Columbus. Esse livro ganhou o National Book Award e foi adaptado em filme estrelado por Richard Benjamin. Quase uma década depois, Philip se viu imerso em um mar de controvérsias envolvendo seu primeiro grande sucesso comercial, O Complexo de Portnoy. O livro foi considerado escandaloso por sua descrição da masturbação.

No final dos anos 70, Roth começou a escrever histórias protagonizadas pelo seu alter-ego literário, o escritor Nathan Zuckerman. Esse personagem apareceu primeiramente em O Escritor Fantasma (1979) e continuou a ter destaque em outras de suas publicações como Zuckerman Libertado (1981), A Lição de Anatomia (1983), e o epílogo A Orgia de Praga (1985). Todas essas histórias foram publicadas no Brasil em um único livro, Zuckerman Acorrentado. Embora existam várias características comuns entre autor e personagem, Roth sempre insistiu que seus livros não são autobiográficos.

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Philip Roth ganhou o National Book Award pela segunda vez com O Teatro de Sabbath em 1995. A história gira em torno de Mickey Sabbath, um manipulador de marionetes aposentado, que começa a questionar sua vida depois da morte de uma de suas amantes. Três anos depois, Roth ganhou o Pulitzer de ficção por Pastoral Americana. Esse livro, parte de uma trilogia que inclui Casei com um Comunista e A Marca Humana, trouxe Nathan Zuckerman de volta para ajudar a contar a história de Seymour “Swede” Levov, um homem de negócios judeu.

Em suma, Roth escreveu mais de trinta livros durante sua carreira. Seus trabalhos mais atuais foram Homem Comum (2006) e Nêmesis (2010). Em 2012, ele anunciou a sua aposentadoria da escrita. Conhecido por ser um tanto recluso, Roth passava a maior parte de seu tempo em sua casa, em Warren, Connecticut. Infelizmente, o autor nos deixou no dia 22 de maio de 2018, mas seu legado como um dos maiores novelistas da literatura americana permanecerá eternizado em suas obras.

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Principais obras publicadas no Brasil:

O Complexo de Portnoy (1969)

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Quando lançado, em 1969, O complexo de Portnoy se tornou best-seller e foi saudado como a consagração definitiva do talento de Philip Roth. A crítica, porém, teve certa dificuldade em classificá-lo. Seria “literatura séria” ou apenas humor? Não era a primeira vez na história do romance que um livro engraçadíssimo parecia uma obra importante; mas havia ao menos dois elementos que causavam estranheza. Em primeiro lugar, o traço caricatural na construção dos personagens lembrava o humor dos grandes comediantes judeus da época, como Lenny Bruce e Woody Allen, que se apresentavam em boates; ao mesmo tempo, porém, a interioridade do narrador-protagonista era de grande densidade. Em segundo lugar, era inegável o desconforto causado pela centralidade do autoerotismo no enredo: o incesto é um tema respeitável desde a tragédia grega, e o homossexualismo ganhava cada vez mais espaço naquele conturbado fim de década em que nada parecia ser proibido – mas masturbação, definitivamente, não era matéria apropriada para um romance com pretensões artísticas.

Nos últimos quarenta anos caíram não apenas os últimos tabus sexuais como também as barreiras entre “arte elevada” e “arte de consumo”. Escritores sofisticados como Thomas Pynchon e John Barth demonstraram que é possível utilizar linguagens pouco nobres para fazer literatura de primeira grandeza. Relendo o livro, agora nesta edição de bolso, constatamos que o humor, a ferocidade e o virtuosismo de Roth permanecem intactos, e podemos mais do que nunca fazer justiça a esta pequena joia literária que é O complexo de Portnoy.

O Teatro de Sabbath (1995)

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Brilhante e despudorado, este romance de Phillip Roth apresenta ao leitor o sexagenário Mickey Sabbath, artista de fantoches aposentado. Desempregado, sujo e trapaceiro, ele arrasta o leitor para o seu labirinto de adultério e morte. No auge da carreira, Roth realiza uma façanha de virtuosismo dramático. Entre as muitas perguntas que o livro suscita, uma se destaca: até que ponto é possível escrever sobre o sexo? O erotismo e uma profunda compaixão pela humanidade caminham de mãos dadas neste romance que já se tornou um clássico da literatura contemporânea.

Zuckerman Acorrentado (1985)

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Nathan Zuckerman não é um escritor de levar desaforo para casa. E não são poucos os desaforos e despropósitos que desde o início de sua carreira ele é obrigado a ouvir. Justo ele, que sempre pretendeu ser um escritor sério, com preocupações morais elevadas, na linha de Thomas Mann. Porém, como Zuckerman sabe, seu forte é a comédia -, em especial, as piadas de judeu. E o establishment judaico não o perdoa por isso. Nem seu pai, nem seu irmão caçula e, em certa medida, nem ele próprio.

Em Zuckerman acorrentado , Philip Roth conta a saga desse escritor. São três romances – O escritor fantasma Zuckerman libertado A lição de anatomia – publicados pelo escritor entre 1979 e 1984 e que, um ano depois, foram reunidos em um volume único, em que está incluída a novela A orgia de Praga , que serve de epílogo à trilogia. São quatro narrativas distintas, porém ligadas por um fio condutor: Nathan Zuckerman, neto de judeus poloneses que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX, é um escritor obcecado pelos judeus e por suas histórias. Mas não pelos judeus que permaneceram na Europa e foram dizimados pelos nazistas, nem pelos que partiram para a Palestina para se dedicar heroicamente à construção da pátria judaica. Não, os judeus que interessam a Zuckerman são as pessoas com as quais ele conviveu na infância e na adolescência, judeus que moram nas ruas arborizadas, tranquilas e banais dos bairros de classe média das grandes cidades americanas, judeus cuja experiência de vida se inscreve não na tragédia do Holocausto, mas na realidade bem mais comezinha de uma sociedade caracterizada pelo apreço à democracia e à liberdade – e movida por um consumismo desenfreado.

Acontece que, para complicar as coisas, Zuckerman é um escritor de mão-cheia, capaz de conferir a suas narrativas o brilho e a efervescência da vida real. E os leitores – dos mais ingênuos aos mais tarimbados críticos literários – acreditam piamente nelas, esquecendo-se de que estão diante de obras de ficção. De modo que um pequeno conto que o jovem Zuckerman escreve aos 23 anos, baseado num episódio burlesco ocorrido com familiares seus, é imediatamente visto como um ataque difamatório a seu próprio povo, uma incompreensível tentativa de expor os judeus ao ridículo, comparável, no frigir dos ovos, às maledicências antissemitas de Goebbels. E, anos depois, com a publicação de um livro escandaloso que cai como uma luva no espírito libertário dos anos 1960, as censuras à sua ficção ganham contornos ainda mais absurdos – dizem até que são as revelações picantes contidas nesse livro que provocam um enfarte em seu pai.

Dotado de uma índole em que, como acontece com tantos personagens de Roth, a indignação vem logo à tona, Zuckerman responde ao disparate das críticas com invenções verbais cada vez mais iradas, extravagantes e engraçadas. Mas paga caro por isso.

Homem Comum (2006)

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Em Homem comum, Philip Roth explora o tema da perda, do arrependimento e do estoicismo ao voltar sua atenção para a luta de um homem contra a mortalidade. Acompanhamos o destino do protagonista a partir de seu primeiro confronto com a morte, nas praias idílicas dos verões da infância, passando pelos conflitos e pelas realizações da idade adulta, até a velhice, quando ele fica dilacerado ao constatar a deterioração de seus contemporâneos e dele próprio. Artista comercial de sucesso, ele tem dois filhos do primeiro casamento, que o desprezam, e uma filha do segundo casamento, que o adora. É amado pelo irmão e é também um ex-marido solitário, tendo destroçado seus três casamentos. No final, é um homem que se transformou naquilo que não quer ser.

Adeus, Columbus (1959)

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Primeiro livro inédito publicado pela Companhia de Bolso, Adeus, Columbus é o livro de estréia de Philip Roth. Foi com essa coletânea de ficções curtas que o hoje consagrado escritor norte-americano surgiu no cenário da literatura mundial, já como um autor em pleno domínio de seus recursos. A novela-título é ainda hoje considerada uma de suas narrativas mais bem realizadas, e ao menos dois dos contos são obras-primas irretocáveis: “A conversão dos judeus” e “Eli, o fanático”. Se em alguns dos textos o autor recria com humor cáustico, na melhor tradição realista, a estreiteza de horizontes da classe média baixa, em outros sua prosa mágica transforma um prosaico bairro pequeno-burguês da Nova Jersey de meados do século passado num mundo tão onírico quanto um quadro de Marc Chagall.

Pastoral Americana (1997)
Casei com um Comunista (1998)
A Marca Humana (2000)

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Pastoral Americana: Neste romance, Roth narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta comunicar um legado moral à terceira geração da família Levov.  Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdida lhe confere um caráter ao mesmo tempo de heroísmo e desatino.

Casei com um Comunista: Menino pobre e ignorante que fugiu da casa dos pais, trabalhador braçal sempre metido em brigas, Ira Ringold conseguiu se tornar um ator de rádio famoso. Comunista exaltado e linha-dura, Ira se atira com ferocidade contra tudo o que julgue ser um inimigo. No auge da carreira, ele faz fama como defensor de causas “progressistas” e se casa com uma atriz de cinema-mudo, Eve Frame. Jamais imaginaria que ela pudesse se voltar contra ele com tamanho ímpeto. Em plena era do macarthismo, quando ser adepto do comunismo equivalia a crime, Eve escreve um livro intitulado “Casei com um comunista”, pondo a nu, diante do público e das autoridades, a vida dupla do astro do rádio.

A Marca Humana: Coleman Silk, professor de letras clássicas numa universidade da Nova Inglaterra, aos setenta anos se vê obrigado a pedir exoneração e a se afastar do meio acadêmico. O motivo é uma acusação de racismo. Coleman empregou uma palavra de duplo sentido ao se referir a alunos que não compareciam às aulas. Ignorava serem negros, pois nunca os tinha visto, e portanto não atinou que suas palavras poderiam ser tomadas como ofensa. Virá em seguida uma acusação de abuso sexual contra uma faxineira que trabalha no campus.

A ideologia do politicamente correto tomou o poder na universidade e disparou sua artilharia contra o velho professor judeu, que agora, como no passado, se recusa a sujeitar-se aos padrões dominantes. Execrado publicamente, Coleman trava contra a faculdade uma batalha humilhante. O ambiente carregado de ódio recrudesce quando o ex-marido da faxineira, um veterano da Guerra do Vietnã mentalmente perturbado, cruza seu caminho. O ciúme se mistura ao rancor, por ser Coleman intelectual, velho e judeu. Perdido na névoa de um delírio homicida, o veterano encarna os piores pesadelos americanos, com os quais Coleman terá de ajustar contas.

Mas o mesmo professor que antes revolucionara a faculdade e se fizera admirar pela audácia guardou um segredo por cinco décadas. Nem a esposa nem os filhos conheceram sua verdadeira origem racial, pois aos vinte anos, ao entrar na marinha, Coleman Silk descobriu que ela não era evidente e que podia manobrá-la. A marca humana, entretanto, não se apaga. Não há destino, individual ou coletivo, capaz de pôr-se a salvo dos seus vestígios.

Complô Contra a América (2004)

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Publicado originalmente em 2004, este romance caminha na contramão da atmosfera realista que costuma cercar a obra de Philip Roth: logo no primeiro parágrafo, o leitor se dá conta de que a ação transcorre no tempo em que o aviador Charles Lindbergh – o primeiro a atravessar o Atlântico a bordo de um avião – foi presidente dos Estados Unidos. Essa época, como se sabe, nunca existiu.

Philip, o protagonista, é um menino como tantos outros, apaixonado por sua coleção de selos. O pai é corretor de seguros. A mãe, dona de casa, e o irmão mais velho, desenhista. Como toda a população do bairro, a família Roth é judia. Nos anos 1940, época em que transcorre a narrativa, parece não haver melhor lugar no mundo para ser judeu do que os Estados Unidos. Mas quando Franklin D. Roosevelt, ao tentar reeleger-se para um terceiro mandato, perde para Lindbergh, o cenário se torna sombrio. O aviador é um ardoroso defensor da Alemanha nazista, um homem para quem os Estados Unidos deveriam se defender da “diluição nas raças estrangeiras”. A vida da família Roth – e, potencialmente, o mundo – nunca mais será como antes.

Nêmesis (2010)

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Aos 23 anos, Eugene “Bucky” Cantor, professor de educação física e inspetor de pátio de uma escola judaica de Newark, vive uma vida pacata, porém é atormentado pelo fato de não poder lutar na guerra ao lado de seus contemporâneos, em razão de sua miopia fortíssima. Tudo muda num dia de verão de 1944, quando um grupo de adolescentes encrenqueiros de ascendência italiana aparece no colégio e cospe no chão, ameaçando a todos com uma doença terrível. Logo depois do incidente, vários alunos contraem poliomielite, para desespero do professor.

Esse é o ponto de partida de Nêmesis . Embora hoje seja muito raro alguém morrer de pólio, até o início da década de 1950 a doença era praticamente fatal. Implacável, chegou inclusive a vitimar o presidente americano Franklin D. Roosevelt, mas atingia sobretudo crianças. Quando não levavam à morte, os efeitos eram devastadores, entre eles a paralisia nos membros e a dificuldade extrema para respirar, a ponto de obrigar os pacientes a utilizarem os temidos “pulmões de aço”.

Conforme a enfermidade se espalha, Bucky Cantor começa a temer que tenha alguma culpa no contágio das crianças. Sofre ainda com o pavor de que ele próprio possa contrair a doença e ver uma vida atlética tão promissora terminar naquela “caixa da qual ninguém pode escapar, por mais forte que seja”. E, em especial, dedica horas e horas questionando-se por que Deus permitiu que a poliomielite existisse, sem nunca conseguir se conformar com as respostas. “O que é que Ele estava tentando provar? Que precisamos ter aleijados na Terra?”, pergunta. Tomado pelo sentimento de culpa, Cantor deixa Newark e vai atrás da namorada em uma colônia de férias nas montanhas Pocono, tentando escapar da pólio.

Nêmesis integra uma tetralogia de novelas formada também por Homem comum ,Indignação A humilhação . Trata-se de mais um exemplo sintomático da intensidade da produção de Philip Roth, que volta a estimular, com doses altas de melancolia, o embate entre o protagonista e sua própria finitude. Na escrita poderosa de Roth, há poucas chances de o herói sair vitorioso.

 

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