Viagem pela América do Sul através da literatura

Postamos recentemente uma lista com 10 livros clássicos da literatura de língua inglesa. Fiquei tão animado com o conteúdo que logo pensei em fazer uma parte 2, mas dessa vez apenas com títulos de autores sulamericanos. No entanto, não imaginava que teria tanto trabalhar para encontrar pelo menos um romance de cada país que tenha sido publicado no Brasil. Pior ainda, quando se sai do eixo Argentina – Chile – Colômbia, apenas os grandes nomes chegaram o nosso país. Mesmo assim, resolvi seguir em frente e cheguei à essa compilação. Por ter trazido apenas um autor por país, alguns escritores muito conhecidos ficaram de fora, mas essa é uma ótima oportunidade para se conhecer coisas novas.

Vem comigo nessa viagem pela América do Sul!

Argentina

Ficções, de Jorge Luis Borges

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Ficções – publicado originalmente em 1944 pelas Ediciones Sur – é a obra que trouxe o reconhecimento universal para Jorge Luis Borges, graças, entre outros motivos, ao caráter fora do comum de seus temas, abertos para o fantástico, e à inesperada dimensão filosófica do tratamento.

Ficções reúne os contos publicados por Borges em 1941 sob o título de O jardim de veredas que se bifurcam (com exceção de “A aproximação a Almotásim”, incorporado a outra obra) e outras dez narrativas com o subtítulo de Artifícios . Nesses textos, o leitor se defronta com um narrador inquisitivo que expõe, com elegância e economia de meios, de forma paradoxal e lapidar, suas conjecturas e perplexidades sobre o universo, retomando motivos recorrentes em seus poemas e ensaios desde o início de sua carreira: o tempo, a eternidade, o infinito. Os enredos são como múltiplos labirintos e se desdobram num jogo infindável de espelhos, especulações e hipóteses, às vezes com a perícia de intrigas policiais e o gosto da aventura, para quase sempre desembocar na perplexidade metafísica. Chamam a atenção a frase enxuta, o poder de síntese e o rigor da construção, que tem algo da poesia e outro tanto da prosa filosófica, sem nunca perder o humor desconcertante.

Em Ficções estão alguns de seus textos mais famosos, como “Funes, o Memorioso”, cujo protagonista tinha “mais lembranças do que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo”; “A biblioteca de Babel”, em que o universo é equiparado a uma biblioteca eterna, infinita secreta e inútil; “Pierre Menard, autor do Quixote”, cuja “admirável ambição era produzir páginas que coincidissem palavra por palavra e linha por linha com as de Miguel de Cervantes”; e “As ruínas circulares”, em que o protagonista quer sonhar um homem “com integridade minuciosa e impô-lo à realidade e no final compreende que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando”.

Bolívia

Hotéis, de Maximiliano Barrientos

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Por ser um elemento essencial no sistema de serviço utilizado pela atividade turística, o hotel evoluiu de tal modo que converteu-se em uma organização complexa que requer, para sua administração, um pessoal técnico e especializado do mais alto nível. As gerências eficazes de segurança e manutenção no setor hoteleiro são fundamentais para alcançar a excelência administrativa, pois constituem-se em agentes que possibilitam a realização dos objetivos e o sucesso dessa indústria. Esta obra analisa rigorosamente os mais importantes conceitos dessas áreas e, certamente contará com total aprovação tanto dos estudantes de turismo como daqueles que são os responsáveis diretos pela segurança e pela manutenção dos hotéis: os próprios gerentes.

Brasil

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

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Romance mais popular de Clarice Lispector, lançado em 1977, ano da morte da escritora, A Hora da Estrela expõe os dilemas criativos do escritor Rodrigo S. M. (alter-ego da própria Clarice) para narrar a história de Macabéa, uma jovem alagoana órfã, virgem, feia e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa e onde cumpre seu triste destino com total resignação.

Em seu romance de despedida, Clarice põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor atormentado, à espera da morte; ela, uma moça infeliz e desprezada por todos, que gosta de espantar a solidão ouvindo a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, como a própria autora.

Uma obra que se mantém instigante, inovadora e profundamente comovente há 40 anos, ganhando reimpressões sucessivas e traduções em todo o mundo. Agora, A hora da estrela atinge seu apogeu com esta edição que já nasce clássica e predestinada a se tornar um item de coleção.

Chile

A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

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A casa dos espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido.

Isabel Allende constrói um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza.

As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.

Colômbia

Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez

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Neste, que é um dos maiores clássicos de Gabriel García Márquez, o prestigiado autor narra a incrível e triste história dos Buendía – a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações dessa família, assim como a ascensão e a queda do vilarejo. Para além dos artifícios técnicos e das influências literárias que transbordam do livro, ainda vemos em suas páginas o que por muitos é considerado uma autêntica enciclopédia do imaginário, num estilo que consagrou o colombiano como um dos maiores autores do século XX.

Equador

Um Homem Morto a Pontapés, de Pablo Palacio

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Publicados originalmente em 1927, quando Pablo Palacios não ultrapassava os 21 anos, a coletânea de contos Um homem morto a pontapés e a novela Débora são verdadeiros marcos da vanguarda literária hispano-americana, tanto em seu aspecto formal quanto temático. Inédito no Brasil, o autor equatoriano que nasceu em 1906 e faleceu em 1947, tendo vivido seus últimos anos num hospital psiquiátrico, teve sua obra, durante um longo período, interpretada pela chave da loucura, ao abordar temas anterior mente intocados pela ficção no continente e por flertar com o absurdo, o irreverente e o grotesco, num período em que predominava uma abordagem realista da literatura.

Guiana

A História do Ventríloquo, de Pauline Melville

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O primeiro livro de Pauline Melville, uma inglesa que morou na Guiana Inglesa, foi um conjunto de histórias sobre os laços culturais entre Londres e sua ex-colônia na América do Sul. Estreando agora como romancista, ela volta a contemplar a Guiana sem receio de tomar partido – sob “A História do Ventríloquo” está o massacre cultural dos povos indígenas assentados naquele espaço que veio a se tornar a Guiana Inglesa.

Este livro renova a percepção de como o colonizar transformou costumes indígenas em superstições. Mas a história começa ainda antes de os ingleses descobrirem a Guiana, quando wapixanas e macuxis haviam descoberto a felicidade. Por sorte o ventríloquo tem boa memória, e se deita na rede para contar a história dessa gente.

Guiana Francesa

Papillon, de Henri Charrière

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Publicado originalmente em 1969, e no Brasil em 1975, pela Editora Difel, o polêmico Papillon, a história do homem que fugiu do inferno, de Henri Charrière, chega às livrarias pela Bertrand Brasil em edição revisada e atualizada.

Charriere, condenado à prisão perpétua por um assassinato que não cometeu, foi um dos poucos que conseguiram fugir da Ilha do Diabo, presídio localizado na floresta impenetrável da Guiana Francesa, onde os presos pagavam por seus crimes sofrendo degradações e brutalidades. No livro, ele relata como foi acusado, fala de seu martírio ao longo dos anos de confinamento, além da corrupção entre os guardas e como planejou sua fuga cinematográfica.

Quando publicado na França, Papillon foi alvo de grande controvérsia. Nunca se soube ao certo se os acontecimentos narrados de fato ocorreram com o autor, como ele alega – o que faria do livro um romance autobiográfico –, ou se a trama é fruto de sua fértil imaginação.

Papillon é um dos relatos mais impressionantes e realistas de toda a literatura, um feito incrível de engenhosidade humana, força de vontade e perseverança. A história de um homem que não se deixou vencer. Ao lê-lo, o leitor estará certo de ter um thriller nas mãos.

Paraguai

O Inverno de Gunter, de Juan Manuel Marcos

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O inverno de Gunter, vencedor do Prêmio Livro do Ano em 1987 traduzido para mais de 14 idiomas e considerado o romance paraguaio mais importante das últimas quatro décadas – ganha agora sua primeira edição em língua portuguesa pela 7Letras na tradução de Daiane Pereira Rodrigues.

Esta obra fascinante e de refinado humor é simultaneamente um romance policial ode amorosa reflexão sobre as raízes míticas tupi-guarani. Surpreendendo pela habilidade no uso de vibrantes técnicas narrativas inéditas no Paraguai da época o romance de Juan Manuel Marcos é um comovente testemunho do idealismo e da luta da juventude e dos intelectuais contra as ditaduras dos anos 1980 na qual não faltam referências aos laços culturais entre Paraguai e Brasil.

Peru

O Sonho do Celta, de Manuel Vargas Llosa

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Esta obra narra a saga de Roger Casement, um irlandês a serviço do Império Britânico, que conheceu a violência da colonização na África e na América do Sul no começo do século XX. Ao denunciar os abusos e os maus-tratos contra colonos, passou a valorizar a liberdade acima de tudo. E, em nome da liberdade, voltou-se contra seu próprio governo. Em 1916, encarcerado em um presídio de segurança máxima em Londres, é acusado pelo governo inglês de alta traição e aguarda sua sentença. Apenas cinco anos antes, havia sido nomeado Cavalheiro. Agora, abandonado por quase todos os amigos, difamado pela opinião pública, corre o risco de ser executado.

Suriname

Hoe Duur Was de Suiker, de Cynthia McLeod

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Publicado originalmente em holandês e ainda não disponível em português, Hoe Duur Was de Suiker (The Cost of Sugar, na tradução em inglês) mostra o Suriname entre 1765-1779, quando o açúcar reinava. Sob a perspectiva de duas meio-irmãs judias, conhecemos a vida de colonos e escravos na antiga colônia holandesa.

Uruguai

As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeno

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No livro, de 1971, Galeano analisa a história da América Latina desde o período da colonização europeia até a Idade Contemporânea, argumentando contra a exploração econômica e a dominação política do continente, primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos Estados Unidos. A exploração do continente foi acompanhada de constante derramamento de sangue indígena. Devido à exposição de eventos de grande impacto para o conhecimento da história do continente, o livro foi banido na Argentina, Brasil, Chile e Uruguai durante as ditaduras militares destes países.

Venezuela

Ifigênia, de Teresa de la Parra

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María Eugenia Alonso tem 18 anos quando perde o pai e precisa deixar a Europa, onde viveu por doze anos, para retornar a sua Venezuela natal. O impacto da troca de Paris, em plena efervescência cultural dos anos 1920, pela monótona e conservadora Caracas, onde ela vai morar com a tia e a avó, a inspira a registrar suas impressões em um diário. Esse é o mote de Ifigênia, diário de uma jovem que escreveu porque estava entediada, da venezuelana Teresa de la Parra (1889-1936), autora inédita no Brasil.

A nova vida de María Eugenia revela a realidade das mulheres na Venezuela no início do século XX, “submetidas a um modelo de resignação, quando nada mais lhes restava senão o ‘bom matrimônio’ com um homem de posses”, como descreve Tamara Sender, tradutora e autora do posfácio do livro. O contraste com a realidade de Paris e a crítica à posição da mulher na sociedade caraquenha da época fez com que Ifigênia – cujo título remete à heroína grega que simboliza o sacrifício feminino – se tornasse um dos ícones da literatura feminista latino-americana da primeira metade do século XX. Publicado inicialmente em Paris, em 1924, o livro escandalizou alguns leitores venezuelanos e foi considerado por moralistas como “pérfido e perigosíssimo na mão das moças contemporâneas”, como relatou a própria autora.

 

 

 

 

Nenhum pensamento

  1. Que post incrível! Adorei conhecer obras de outros países, afora Borges e Allende, dos estrangeiros, não conhecia nada, apenas o nome de um e outro, claro, mas nunca li nada. Vou guardar esse post pra poder ler os livros ☺️

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