E se…? Quando a literatura reimagina a História

“E se…?”. Acredito que essa seja uma das questões mais feitas pela humanidade em toda sua história. Especular como um cenário teria se desenvolvido caso algo tivesse acontecido de uma outra maneira é algo que fazemos quase diariamente. E como a literatura é um reflexo da sociedade, essa pergunta traçou seu caminho até as páginas de inúmeras obras mundo afora.

O Rede de Leitores apresenta oito dessas obras de Ficção Alternativa, sejam elas uma reimaginação da História real, ou contendo também elementos fantásticos e tecnológicos.

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick

alt1Neste livro que é considerado por muito o melhor trabalho do autor, Dick apresenta um cenário sombrio: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelos Nazistas. O mundo vive sob o domínio da Alemanha e do Japão. Os negros são escravos. Os judeus se escondem sob identidades falsas para não serem completamente exterminados. É nesse contexto que se desenvolvem os dramas de vários personagens. Ao apresentar uma versão alternativa da história, Dick levanta a grande questão: “O que é a realidade, afinal?”

Novembro de 63, de Stephen King

alt2A vida pode mudar num instante, e dar uma guinada extraordinária. É o que acontece com Jake Epping, um professor de inglês de uma cidade do Maine. Enquanto corrigia as redações dos seus alunos do supletivo, Jake se depara com um texto brutal e fascinante, escrito pelo faxineiro Harry Dunning.

Cinquenta anos atrás, Harry sobreviveu à noite em que seu pai massacrou toda a família com uma marreta. Jake fica em choque… mas um segredo ainda mais bizarro surge quando Al, dono da lanchonete da cidade, recruta Jake para assumir a missão que se tornou sua obsessão: deter o assassinato de John Kennedy. Al mostra a Jake como isso pode ser possível: entrando por um portal na despensa da lanchonete, assim chegando ao ano de 1958, o tempo de Eisenhower e Elvis, carrões vermelhos, meias soquete e fumaça de cigarro.

Após interferir no massacre da família Dunning, Jake inicia uma nova vida na calorosa cidadezinha de Jodie, no Texas. Mas todas as curvas dessa estrada levam ao solitário e problemático Lee Harvey Oswald. O curso da história está prestes a ser desviado… com consequências imprevisíveis.

Wild Cards I: O Começo de Tudo, de George R.R. Martin

alt8Com início das publicações em 1987 e chamado pelos fãs de “romance-mosaico”, a série Wild Cards volta a 1945 para contar a saga dos seres atingidos pelo xenovírus Takis-A.

A Segunda Guerra Mundial acabou e o mundo começava a se preparar para a reconstrução, até que uma nave espacial um tanto estranha cai na Terra, e um ser alienígena tão excêntrico quanto seu “veículo” começa a anunciar que estamos em perigo, que um vírus – que ele não sabe ao certo o que pode causar aos humanos – caiu na Terra.

Mas era tarde demais… O vírus se espalha no céu de Nova York e aos poucos começa a contaminar o resto do mundo. No começo ninguém sabia se era uma bomba química ou atômica, até que as primeiras pessoas começaram a morrer ou se transformaram em seres bizarros ou extremamente poderosos. O vírus ficou conhecido com carta selvagem, afinal, como num jogo de baralho, nunca se sabia qual carta – ou qual mutação no caso – poderia tirar.

Underground Airlines, de Ben H. Winters

alt3Autor da trilogia O Último Policial, ganhador dos prêmios Edgar e Philip K. Dick, Ben H. Winters é uma das principais vozes da literatura policial e da ficção científica contemporânea nos EUA.

Em Underground Airlines, o autor conta uma história ambientada numa realidade alternativa em que os Estados Unidos não passaram pela guerra civil e os estados de Mississipi, Alabama, Louisiana e Carolina do Sul permanecem separados do norte do país e vivendo de mão de obra escrava.

Na trama, Victor é uma espécie de “capitão do mato”, um ex-escravo que trabalha rastreando escravos fugitivos e devolvendo-os a seus donos. Ao mesmo tempo, porém, em que opera a favor do status quo, ele age sob uma agenda própria. A partir desse personagem contraditório e aludindo às “underground railroads”, rotas clandestinas pelas quais os escravos americanos fugiam para o norte abolicionista ou para o Canadá, Underground Airlines é um ótimo entretenimento e também uma provocação à sociedade americana com suas questões raciais, econômicas e políticas.

Não Vai Acontecer Aqui, de Sinclair Lewis

alt6Um homem vaidoso, falastrão, anti-imigrantes e demagogo concorre à presidência dos Estados Unidos — e ganha. Buzz Windrip promete aos eleitores americanos que fará o país próspero e grande novamente, mas acaba trilhando um caminho sombrio. Ele declara o Congresso obsoleto, reescreve a Constituição e desencadeia uma onda fascista no país. O novo regime se torna cada vez mais autoritário, e o jornalista Doremus Jessop pensa que logo o presidente será derrubado, mas quanto tempo é possível esperar?

Escrito em 1935, Não vai acontecer aqui não poderia ser mais atual.

Máquina Diferencial, de William Gibson; Bruce Sterling

alt5Em uma versão alternativa da Inglaterra vitoriana, a ascensão do Partido Radical trouxe mudanças impressionantes. Pelas ruas da capital, cartolas e crinolinas misturam-se a cinétropos, gurneys e cabriolés. O trem metropolitano e o sistema de esgotos revolucionam a rede urbana. Tudo graças às conquistas científicas alcançadas pela Máquina: no auge da Revolução Industrial, os avanços promovidos pela tecnologia a vapor anunciam a era da informática. Com um século de antecedência.

Mas Londres também é uma cidade em convulsão. O alvoroço causado pela turba desordeira assusta a população. Além disso, uma conspiração mais sofisticada – porém não menos perigosa – parece ameaçar a segurança e a estabilidade de todo o país. Enquanto isso, uma misteriosa caixa com cartões perfurados é objeto de cobiça e disputa, pois guarda um segredo estratégico, ligado a interesses nebulosos. Acidentalmente ou não, ela cai nas mãos de diferentes personagens, mudando suas vidas: Sybil Gerard, ex-amante de um político influente e filha de um insurreto executado; Ada Byron, filha de Lorde Byron, então primeiro-ministro da Inglaterra; e Edward Mallory, um respeitado cientista, descobridor do famoso Leviatã Terrestre.

Complô Contra a América, de Philip Roth

alt7Publicado em 2004, este livro caminha na contramão da atmosfera realista que costuma cercar a obra de Philip Roth: a trama transcorre no tempo em que o aviador Charles Lindbergh – o primeiro a atravessar o Atlântico a bordo de um avião – foi presidente dos Estados Unidos. Essa época, como se sabe, nunca existiu.

Philip, o protagonista, é um menino apaixonado por sua coleção de selos. O pai é corretor de seguros. A mãe, dona de casa, e o irmão mais velho, desenhista. Como toda a população do bairro, a família Roth é judia. Nos anos 1940, época da narrativa, parece não haver melhor lugar no mundo para ser judeu do que os Estados Unidos.

Mas quando Franklin D. Roosevelt, ao tentar reeleger-se para um terceiro mandato, perde para Lindbergh, o cenário se torna sombrio. O aviador é um ardoroso defensor da Alemanha nazista, um homem para quem os Estados Unidos deveriam se defender da “diluição nas raças estrangeiras”. A vida da família Roth – e, potencialmente, o mundo – nunca mais será como antes.

Associação Judaica de Polícia, de Michael Chabon

alt4A prosa original e imaginativa de Michael Chabon mais uma vez surpreende: num mundo em que o Estado de Israel foi destruído, logo após sua fundação em 1948, por uma coalizão árabe, os judeus da diáspora se instalam no distrito federal de Sitka, no litoral do Alasca, que lhes foi concedido provisoriamente pelo governo dos Estados Unidos.

A ação se passa em 2007, às vésperas da “reversão”, ou seja, da devolução do território aos Estados Unidos. Nessa atmosfera de tensão e incerteza, o detetive de polícia Meyer Landsman – que pelo jeito desleixado, métodos pouco ortodoxos, humor cáustico e tendência ao alcoolismo é uma espécie de versão judaica dos anti-heróis noir de Dashiell Hammett e Raymond Chandler – se vê diante do assassinato de um obscuro viciado em heroína. E o que de início parece ser um crime banal acaba por se revelar um mistério quase insolúvel que envolve a máfia judaica, gênios do xadrez, um potencial messias e um plano mirabolante para a reconquista militar de Jerusalém e da Terra Santa.

Ao lado do leal parceiro e amigo de infância Berko Shemets, mestiço de índio e judeu, Landsman tem de convencer sua ex-mulher e atual chefe durona a deixá-lo atuar no caso, e decifrar o enigma antes que os ianques assumam a polícia de Sitka.

O perfil do protagonista, a ambientação predominantemente noturna em cenários sórdidos, o humor cáustico que beira o cinismo, e a estrutura narrativa, fazem de Associação Judaica de Polícia uma homenagem renovada ao romance policial hard boiled dos anos 1930 e 1940, que inspirou tantos filmes do gênero noir .

 

 

Nenhum pensamento

  1. Adorei a lista. Li “Androides” há pouco tempo, do PKD, e não vejo a hora de ler outros livros dele. Esse que vcs postaram, muita gente tem falado dele. Mas também me interessei pelos demais livros listados.

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