Entrevista com o autor Peter V. Brett

Peter V. Brett

Peter V. Brett é o autor do Ciclo das Trevas, série de cinco livros publicada no Brasil pela DarkSide Books. Conversamos sobre o terceiro livro, A Guerra da Luz, que ganhou recentemente sua edição nacional, nessa entrevista realizada no ano passado e inédita até então. Também falamos sobre a expectativa para o fim da série e planos para o futuro.

Em a Guerra da Luz temos flashbacks de Inevera e a sua versão dos eventos ocorridos nos dois primeiros livros da série. Dessa forma, somos apresentado a alguns eventos por vários pontos de vistas diferentes. Me agradou muito essa abordagem narrativa e a forma como você mostrou que certo e errado, bom e mau, são apenas uma questão de perspectiva. Como você teve a ideia de narrar o livro dessa forma e por que achou importante fazê-lo? Te agradou ver os leitores mudando de opinião sobre um personagem que eles odiavam, como Jardir?

Focar em diferentes personagens em cada livro era o meu plano desde o início, começando com Arlen e Jardir. É muito fácil desumanizar seus oponentes na ficção (e na vida real) sem entendê-los de verdade.

Meu objetivo ao apresentar esse mundo através dos pontos de vistas dos antagonistas era mostrar ao leitor que cada um é o herói de sua própria história. São histórias de como pessoas importantes, todas com o mesmo propósito de livrar o mundo dos demônios pelo bem da humanidade, podem fazer escolhas de boa fé que, de alguma forma, as farão entrar em conflito.

Em A Lança do Deserto, começamos com Jardir como uma criança inocente, e levamos o leitor em sua jornada para se tornar o guerreiro que vimos em O Protegido. O objetivo de A Lança do Deserto era fazer os leitores torcerem para Jardir superar os desafios de sua vida, assim quando ele e Arlen entrassem em conflito pela sua perspectiva, a cena pudesse ser lida de forma diferente. Foi um risco do aspecto criativo, mas me agradou bastante.

Agora, em A Guerra da Luz, entenderemos Inevera da mesma forma. Ela pode se tornar a personagem favorita de todos em breve.

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Eu vejo Arlen e o Protegido como duas pessoas completamente diferentes. Arlen é um jovem gentil e idealista que deseja ensinar as pessoas a enfrentarem seus medos. Mas circunstâncias em sua vida fizeram com que ele se tornasse o Protegido, um assassino impiedoso e perigoso. No entanto, podemos perceber ele retornando ao seu antigo eu depois que Renna voltou para sua vida. Podemos esperar ver mais do verdadeiro Arlen em A Guerra da Luz, ou o Protegido será mais proeminente, uma vez que o povo confia nele para lutar contra os demônios?

A Guerra da Luz é outro momento crucial do desenvolvimento de Arlen. O encontro com o demônio da mente no final de Lança do Deserto expandiu seu entendimento sobre si e seus poderes, trazendo uma paz interior entre o jovem idealista e o assassino impiedoso. Menos assustado, mas infinitamente mais poderoso, se torna cada vez mais difícil convencer o povo que ele não é o Salvador, enviado dos céus para acabar com a praga demoníaca.


Em A Lança do Deserto, você nos mostrou que mesmo combatendo um inimigo em comum, a humanidade sempre vai lutar entre si por poder. A situação se torna ainda pior nesse terceiro livro, quando os dois Salvadores se aproximam de um confronto. Eu li que os ataques terroristas de 9 de setembro de 2001 inspiraram de alguma forma a escrita de O Protegido. Esse conflito por poder seria também inspirado por algum evento real, ou apenas uma forma de mostrar o pior lado da humanidade?

Sim e não.

Os conflitos e personagens nos meus livros não foram criados para se assemelharem com eventos ou pessoas específicas, mas acredito que através desses acontecimentos e personagens fictícios, podemos ter uma certa perspectiva sobre os problemas do nosso mundo real. As histórias não nos lembram apenas das diferenças entre as pessoas, mas também das coisas essenciais que compartilhamos.

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Leesha, Inevera, Amanvah, Sikvah, Wonda, Lady Araine, e muitas outras. O Ciclo das Trevas tem um grande elenco de personagens femininas fortes, cada uma delas demonstrando muita coragem à face do perigo, e fazendo a sua parte. Como você vê a representação feminina da fantasia em geral?

É um defeito bem frustrante na literatura em geral – e na fantasia, em particular – que o personagem padrão seja masculino a não ser que haja uma razão muito convincente para que o contrário aconteça. Isso não é algo alinhado com a realidade. Mulheres SEMPRE fizeram parte dos grandes acontecimentos do mundo. Dirigiram negócios, lutaram em guerras, e comandaram nações desde o início das civilizações.

Embora existam exemplos de autores que acertam, acredito que, no geral, a representação feminina na fantasia e ficção científica tem sido pobre. Eu tento evitar esse ero em meus livros. Desde o começo da série, as mulheres aparecem em diferentes estilos de vida, em papéis grandes ou pequenos. Leesha, Renna e Inevera são protagonistas com participação direta nos eventos da história. Sem elas, Arlen ainda seria um selvagem vivendo nas florestas, e Jardir teria sido posto em combate muito cedo e morrido.


Você está escrevendo o último livro do Ciclo das Trevas, um dos livros mais aguardados na minha lista de leitura. Tenho certeza que não sou a única pessoa com altas expectativas para esse livro. E você, como se sente tão perto de terminar a série que te tornou um autor bem-sucedido? Vai ficar triste ou aliviado quando digitar “fim…”?

Acredito que ambos. Tenho que admitir que escrever esse livro foi muito emocionante para mim. É o final de uma jornada criativa que iniciei quinze anos atrás e que, de muitas formas, moldou a minha vida. Eu quero mais que tudo um “acerto crítico”, finalizar a série em alto nível. Mas acho que, no dia seguinte, vou acordar me sentindo um pouco vazio sem Arlen e companhia ocupando meus pensamentos.

A edição americana está prevista para o verão de 2017. Espero que a edição da DarkSide venha logo em seguida.

Nota do Editor: No momento que essa entrevista for postada, The Core já estará disponível em inglês.

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Eu li que você já tem planos de publicar alguns livros em volume único e uma nova séries ambientados no mundo de Ciclo das Trevas. Você pode compartilhar alguma informação sobre o desenvolvimento desses livros? Pretende escrever algo sobre a vida de Kaji, o primeiro Salvador, e como ele derrotou os terraítas?

Você leu certo. Depois de The Core, vou escrever uma nova série ambientada no mundo de Ciclo das Trevas. Será um recomeço de várias maneiras, explorando novos personagens, novos lugares. O plano é usar a série atual como um ponto de partida, mas, ao mesmo tempo, deixar que os novos livros se sustentem para pessoas que não leram a série original. A protagonista será Olive Paper, filha de Leesha, personagem introduzida no primeiro capítulo de The Core.

O livro stand-alone se chamará Barren, mostrando o ponto de vista de Selia Seca, a porta-voz de Riacho de Tibbet. Essa história terá conexão direta com os eventos de The Core.

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