Entrevista com o autor Mark Lawrence.

markcc

Mark Lawrence é o autor da Trilogia dos Espinhos e A Guerra da Rainha Vermelha, cujo segundo livro foi publicado nesse mês de agosto pela DarkSide Books. Nessa entrevista, realizada no ano passado e inédita até então, conversamos sobre o feedback dos leitores, seus protagonistas, e seu projeto para ajudar autores iniciantes.

Seus livros parecem causar fortes reações nos leitores, que os amam ou odeiam, sem meio-termo. Felizmente, a maioria parece gostar, uma vez que você é um dos autores de fantasia mais bem-sucedidos no Brasil. Por que você acha que essas reações intensas acontecem? E quais elementos dos livros as despertam?

Bem, a primeira coisa que devo destacar é que não acho que isso seja verdade. As avaliações no Skoob são bem similares as do Goodreads ou Amazon. A maioria dos leitores dá 5* ou 4*, menos dão 3*, menos ainda dão 2*. 1* é a avaliação menos comum (2% dos leitores no Skoob).

A verdade é que a pessoas têm mais tendência a fazer barulho sobre um livro que elas adoraram ou odiaram, e bem menos se acharam que foi apenas OK. Além disso, resenhas muito negativas chamam a atenção e atraem fluxo para o blog que as escreve.

Por outro lado, escuto com frequência que foram as resenhas negativas que instigaram as pessoas a lerem meus livros. Quanto mais extrema uma resenha negativa é, mais ela transmite os preconceitos do próprio resenhista. Isso quase sempre motiva os leitores que não seguem àquela agenda a indagar o porquê de tanto alarde.

A conclusão é que um livro que inspira emoção sempre vai conquistar mais leitores do que aqueles que não.

Sobre o que causa tais reações… há muitas possibilidades. Algumas pessoas gostam de criticar o que é popular para parecerem mais interessantes. Algumas pessoas ficam chateadas quando algo que outra pessoa adorou não significa nada para elas. Algumas pessoas não reagem bem ao serem desafiadas por algo novo e inesperado. Mas na grande maioria dos casos, é simplesmente porque algumas pessoas preferem cerveja a café, ou azeitonas a chocolate.

mark2
A Guerra da Rainha Vermelha

Seus protagonistas são bem diferentes entre si. Jorg é ambicioso, violento e vingativo, enquanto Jalan é um covarde, enganador e mentiroso. Surpreendentemente, a maioria dos leitores brasileiros parecem simpatizar mais com Jorg. Por que você acha que isso acontece, considerando que ele é uma pessoa muito pior do que Jal para se cruzar em uma rua escura?

Mais uma vez, não acho que seja exatamente verdade. Prince of Fools tem uma avaliação melhor que Prince of Thorns no Skoob, assim como em toda a internet. Além disso, os leitores brasileiros acompanharam o arco de Jorg inteiro ao longo de três livros, enquanto só viram um terço da história de Jalan.

Se for verdade, provavelmente é algo bem simples, como constatar quantas características de herói ambos possuem. Leitores de fantasia gostam de heróis, pois muitos acabam se projetando naquele personagem sobre o qual estão lendo, e se projetar em um herói é muito mais satisfatório. Na verdade, embora Jorg faça coisas terríveis, ele tem várias características heroicas, como bravura, sorte e competência. Se você consegue esquecer o quanto ele é negligente em fazer o bem, então é fácil de imagina-lo como um herói.

De qualquer maneira, no final das contas, a meta do autor é escrever um livro que as pessoas queiram ler, não um personagem que elas gostem ou queiram ser.


Na Trilogia dos Espinhos, vemos Jorg indo de um caminho sombrio para um destino “um pouco menos sombrio”. Isso está representado nas capas das edições brasileiras dos livros. Por outro lado, Liar’s Key, publicado esse mês pela DarkSide Books, parece retratar Jalan indo na direção contrária, rumo a um caminho ainda mais sombrio. Seriam elas histórias de redenção x histórias de perdição? Se sim, era sua intenção mostrar os dois caminho?

Eu não penso em termos de redenção ou perdição. Não quero dar spoiler de nenhuma das trilogias para os leitores, ao dizer para onde elas se encaminham, mas posso afirmar que nunca tenho em mente querer mostrar um caminho específico ou ensinar uma lição ao leitor. Eu apenas sigo a vida de um personagem, e o que se revela surpreende a mim tanto quanto ao leitor.

mark3
Trilogia dos Espinhos

The Wheel of Osheim, último livro da trilogia A Guerra da Rainha Vermelha, foi publicado ano passado. Como você se sentiu ao completar sua segunda série comparando com a Trilogia dos Espinhos?

O processo de escrita é terminado bem antes dos livros serem publicados. A Trilogia dos Espinhos foi escrita antes de Prince of Thorns chegar às prateleiras. The Wheel of Osheim foi terminado logo depois que Prince of Fools entrou no mercado. Assim sendo, esse completar é algo particular, sem muita festa, antes que os personagens sejam importantes para alguém além de mim. O sentimento é complexo e não pode ser expresso de forma apropriada com palavras como ‘de boa, ‘esperançoso’, ou ‘aliviado’. Na verdade, é algo bem controlado. “Bem, terminei. O que será que vem depois?”


Você escreveu um artigo bem interessante no seu blog sobre seguir adiante e trabalhar em uma nova trilogia, ambientada em um mundo completamente diferente do que foi criado para as suas duas séries. Embora eu goste de ler séries longas de fantasia (como Dragonlance), concordo que é melhor variar, especialmente considerando a grande quantidades de novas séries sendo publicadas hoje em dia. Então, o seu plano é continuar a publicar trilogias, cada uma com um protagonista diferente? Há alguma proposta para trazer a nova trilogia para o Brasil?

Não tenho certeza se variar é o melhor, comercialmente falando, para um autor (na verdade, provavelmente não é), mas todos queremos curtir nosso trabalho e sentir que estamos fazendo coisas novas.

Eu não planejo. Sento, começo a digitar, e vejo o que acontece. Por isso, não tenho ideia do que vou fazer quando terminar o livro que estou escrevendo no momento – o terceiro livro da minha terceira trilogia.

Se um livro será publicado ou não em qualquer país é sempre uma decisão da editora local. O ramo editorial é um negócio complexo e cada vez mais controlado pelos números. Se o livro atual de um autor vende bem, ele vai receber uma proposta para o próximo. Se não… adeus. Se Red Sister (livro um da nova trilogia) sairá no Brasil, depende apenas da DarkSide comprar os direitos. Eles irão decidir isso quando avaliarem como a trilogia A Guerra da Rainha Vermelha vendeu. Aliás, muitas editoras irão até interromper um série nos livros um ou dois, se não estiver vendendo bem.


Você não teve tanta dificuldade para conseguir seu primeiro contrato de publicação. No entanto, isso é um exceção. Na verdade, é muito difícil para um escritor conseguir um contrato. Muitos deles partem para a auto-publicação como alternativa. Para tentar resolver essa problema, você teve a ideia de Self-Published Fantasy Blog-Off (SPFBO), sobre o qual comentou o seguinte:

“Percebi que [autopromoção] é bem mais fácil quando você já faz sucesso. E como um autor novato, isso é algo extremamente difícil. É um problema de comunicação. Quem sabe quantos ‘Nomes do Vento’ […] se perdem apenas porque não são notados. Nenhum? Centenas?”

Você pode falar um pouco sobre o SPFBO? Por que você acha que é responsabilidade sua fazer algo pelo problema?

O SPFBO é um concurso onde 300 livros auto-publicados são distribuídos em grupos de trinta para dez blogueiros de fantasia que, por suas vezes, elegem os favoritos. Os dez finalistas, então, são lidos por todos eles e um campeão geral é escolhido. No meio do caminho, muitos livros recebem resenhas e publicidade que não teriam de outra maneira.

Certamente não senti que fosse uma responsabilidade. Não tenho tanta certeza que seja um problema também. Quero dizer, sempre foi assim em diversas áreas como esportes, escrita, música etc, em que uma pequena porcentagem fará sucesso enquanto muitos outros com habilidades parecidas, mas com um pouco menos de sorte, vão passar totalmente despercebidos. O público em geral quer ‘superstars’. Eles querem Usain Bolt, J.K. Rowling, Beyoncé… eles não querem ver alguém novo toda vez que assistem os 100m rasos, olham para uma estante, ou ligam a TV na MTV.

É claro que internamente isso parecer ser bem injusto. O atleta que consegue saltar 99% das vezes tanto quanto o medalhista de ouro olímpico se pergunta por que ninguém sabe seu nome. A cantora que atinge todas as notas questiona por que ela não está na televisão. Na maioria das vezes a resposta é apenas sorte.

Eu duvido que você encontre muitos autores best-sellers que, mesmo confidencialmente, vão dizer que fazem sucesso porque escrevem melhor do que todos os autores menos bem-sucedidos.

De qualquer forma, a situação é o que é. Não consigo imaginar um cenário onde haja centenas de milhares de autores de fantasia compartilhando os holofotes de maneira igualitária, todos recebendo a atenção que merecem. Nenhum deles conseguiria viver daquilo… não há leitores suficiente. Então, não acho necessariamente que há um erro a ser corrigido.

A verdadeira razão que me fez criar o SPFBO foi pensar que seria algo divertido de fazer (e está sendo), acreditar que poderia ajudar alguns autores, e ajudar a demonstrar tudo aquilo que escrevi nessa resposta. Mais precisamente que há um oceano de talento por aí. Não é porque uma pessoa está no topo da lista de mais vendidos e a outra tem uma publicação própria com apenas duas resenhas, que isso significa que o primeiro autor é ótimo e o segundo não merece ser lido.

Deixe uma resposta